March 31, 2010

«penso eu de que» (I)

Incomoda-me toda esta conversa e mediatismo sobre bullying, que tem havido ultimamente. Um incómodo daqueles que me causa um arrepio pela espinha e me traz as lágrimas aos olhos. Porque me faz lembrar coisas que há muito enfiei numa gaveta do meu arquivo mental, e que começaram a voltar ao de cima recentemente, por causa experiências que o meu pirata tem passado...
Até ao 9º ano passei as ditas "passas do Algarve". Por vários motivos: era muito tímida (não falava com ninguém, e quando os professores me faziam perguntas na sala não conseguia responder em frente aos colegas, simplesmente bloqueava); era a melhor aluna da sala sem ter que fazer grande esforço, e muitos se ressentiam comigo por isso; sempre fui muito alta (aos 10 anos tinha já 1m45, o que fazia com que fosse um bom bocado mais alta que todos, mesmo os rapazes); usei botas ortopédicas até ao 7º ano; e era assim, a atirar p'ró gordita, vá! Tudo factores que contribuíram para que me tenha sido atribuído um rol de alcunhas menos simpáticas... Exemplos? Botifarras, Torre Eiffel... Enfim, coisas que não são exactamente fáceis de esquecer.
Lembro-me das ondas de tristeza que me invadiam na altura. De me deitar à noite e chorar na cama. De não ter ninguém com quem falar. De chamarem a minha mãe à directora para tentar saber o que se passava - mas sem sucesso, porque eu não lhe contava nada. Nem a ela, nem a ninguém...
E um dia, sem explicação, o grupo dos bullies fartou-se de implicar comigo, e escolheu outro alvo. Porque há sempre um que é o eleito. Mas eu, como sou torcida, em vez ficar agradecida e me deixar ficar quieta no meu canto - mera espectadora como os outros - não, fui-me armar em defensora dos inocentes. Lembro-me perfeitamente do dia em que tirei uma colega minha de dentro de um caixote do lixo...
E depois tenho as situações que o meu pirata tem passado. Fico com o coração pequenino, pequenino, assim do tamanho de uma ervilha, só de pensar ...
Quando à noite ele está nervoso, com dificuldade em dormir, mais ansioso, ou com "dores de barriga", já sei que se passou alguma coisa... Porque eu também era assim. E também sei que não adianta perguntar o que se passa porque, quando o faço, a resposta é sempre a mesma: «nada», «não sei», «não me lembro»... É tramado ter este feitio.
Lembro-me do primeiro episódio que sucedeu com ele como se fosse ontem. Estávamos no pediatra, para a consulta dos 18 meses, e ele estava na sala de espera a brincar com um puzzle grande (devia ter umas 12 peças, ou por aí). Veio outra criança, levou umas peças sem pedir nem dizer nada e ele, meu pirata, bondoso e inocente, foi atrás do menino para lhe dar o resto, e ficou a vê-lo a brincar... :(
Agora com 6 aninhos, acabado de entrar para o 1º Ciclo, já tem "matulões" do 4º ano que lhe fazem a vida negra. Dão-lhe caneladas e dizem que é um jogo (e ele, na sua inocência, ainda lhes chama seus amigos...), puxam-lhe o elástico dos óculos... No ATL um pirralho resolveu que lhe há de dar murros quando lhe apetece e tirar-lhe os brinquedos só porque sim... Eu e o pai andamos a tentar incutir-lhe o espírito de auto-defesa: se te fazem, fazes de volta! Fiquei mesmo contente quando, na segunda-feira a professora do ATL me diz que ele deu um murro no pirralho, que lhe tirou a folha!! :D :D Afinal o pirata sempre é um bocadinho menos banana que a mãe!
Por isso digo que sei bem do que falam. Senti-o na pele... Mas não sei se concordo com as soluções que propõem. Num artigo da Visão (em papel) sugeriam que os agressores deveriam ser severamente repreendidos porque não tinham a noção do mal que causavam, e o seu propósito é apenas chamar a atenção e compensar as suas próprias inseguranças. É um facto que os bullies, no fundo, são os indivíduos mais inseguros de todos. Mas será que realmente são assim tão alheados da realidade, que não se apercebam do mal que causam aos outros (seja física ou psicologicamente)? Não consigo acreditar nisso.
Há pouco no noticiário diziam que vai ser passada uma lei que torna crime o acto do bullying. Eu sei que pareço um político, a deitar abaixo todas as soluções sem propor uma alternativa (LOL), mas isto não me parece nada boa ideia. Nem que seja nada eficaz. Vejamos: uma criança/adolescente aterrorizada, já com medo de contar o que quer que seja, vê-se numa situação em que o seu agressor é acusado de um crime por sua causa? Mesmo que não seja a própria "vítima" (não gosto nada desta palavra) a fazer a denúncia, não me parece que isto seja lá muito saudável nem "libertador" para a pessoa em questão...

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